QUARTA PARTE
---- E o que tem isso? - diz a mulher colocando o copo vazio na bandeja.
---- Martha, algo me diz que não é uma morte comum. Tem algo maior envolvido, simplesmente não consigo imaginar o que seja? - coloca também seu copo na bandeja.
---- E a família dele? Não pode ser um caso de vingança? - ela diz tornando a se sentar na cama.
---- Que nada! O pai é apenas um médico do interior. O rapaz ganhou um concurso em uma rádio e o prêmio era passar uma semana no Resort.
---- Algum concorrente dele?
---- Ora querida ... - iria dizer que era besteira, nenhum concorrente seria capaz de sair da cidade e vir até ali só para vingar-se, mas calou-se, não queria discutir e ela entendeu isso. - Não sei, alguma coisa tem por aí... veja, se é um assassinato comum o mais certo é acertarem a pessoa no tórax ou no baixo ventre, 8 entre dez casos de arma branca apontam isso. Já o golpe na garganta, quando o corte é lateral, ou seja de lado, da esquerda para a direita ou vice-versa é usado somente em casos quando vitima e atacante são conhecidos, está entendendo? .. digo conhecidos porque a pessoa pode se aproximar o bastante, para poder praticar tal ato. Mas apenas um em cada 1000 casos de arma branca ocorrem como o desse garoto. A arma é usada não só para matar, mas também para que a vítima não tenha tempo de pronunciar som algum. O Corte é com a ponta, como se fosse uma estocada. E o golpe tem que ser certeiro, romper a jugular de uma só vez, caso contrário a vítima tem muito mais chances de se safar com vida que o golpe do corte lateral. Somente assassinos excepcionais conseguem tal façanha.
--- Você não está se preocupando demais só por causa de um assassinato? Não é a primeira vez que isso ocorre e nem será a última.
---- Eu sei! Mas... é essa tal de reunião em Dezembro. ..Isso está me deixando cabrero.
---- Deixe isso pro serviço de amanhã. Venha, vamos dormir.
A rua Conselheiro Mafra é conhecida como centro da prostituição da cidade. Durante o dia é uma rua comercial com várias lojas pequenas, onde é proibido o transito de veículos, mas a noite o local se transforma e os pequenos hotéis e cúbiculos, abrem suas portas e colocam as mulheres em ação. É a mais famosa zona do meretrício da Capital Catarinense.
O homem estava sentado junto ao balcão de um bar em penumbra. A garota o achou um cliente em potencial. Apesar de estar vestido de modo comum, ela notou que o homem bebia e comia do melhor, sem se preocupar em saber o preço.
Disse chamar-se Sebastian. Sandra o imaginou argentino devido ao seu sotaque e logo pensou em conseguir alguns dólares.
Após alguns drinques ele a chamou para esticar a noite, entretanto revelou que não conhecia o lugar, então a garota disse como fazer para chegarem a um motel conhecido.
Enquanto ele dirigia a mulher o acariciava por sobre a calça, mas notou que o homem permanecia impassível, e por várias vezes a impediu de tocá-lo no rosto.
----- Faça o que fizer, jamais toque meu rosto!- advertiu ele, em tom de voz que não admitia réplica.
A garota estranhou tal pedido, mas provavelmente ele estava disfarçado. Tudo bem, cada um com sua mania. Desde que a pagasse estava tudo bem , respondeu a ele.
Ao chegarem ao quarto do motel, ela puxou um saquinho plástico de dentro de um dos bolsos da calça justa. Mal fechou a porta atrás de si os modos do homem mudaram radicalmente. Parecia ter ficado ainda mais frio e distante. Deixou o quarto em penumbra com apenas a lâmpada do banheiro ligada.
--- Você quer um "teco"? - disse ela abrindo a embalagem e derramando sobre a pequena mesa central um pó branco.
---- Cocaine? - ouviu ele dizer. Era a segunda vez que falava desde que saíram do bar, a primeira fora quando lhe falara sobre o rosto. Sandra tinha a impressão que a palavra que ele usara não era usada por Argentinos.
---- Sim! Não é chegado?-
O homem meneou a cabeça e ela não se importou. Sandra aspirou um pouco do pó com a ajuda de um canudo de refrigerante cortado ao meio.
Em seguida a garota se despiu e percebeu que o homem continuava ainda de roupas sentado na beira da cama. Mantendo a garota longe de si, o estranho homem começou a tirar as vestes. O rosto dele na penumbra assumia ares um tanto distorcidos.
Durante o ato sexual o homem alternava momentos de delicadeza com momentos de fúria e violência. Não a deixava acariciá-lo. Ela era subjugada ás mãos daquele homem que parecia jovem e ao mesmo tempo tão experiente. Em certo momento reclamou percebendo que ele estava usando de violência exagerada, e isso só serviu para excitá-lo ainda mais.
Sandra já havia tido clientes que gostavam do sexo bruto, selvagem. Mas aquele homem parecia diferente de todos. Havia algo nele, um ar misterioso, assustador. Em determinado momento ela o acariciou nos cabelos e notou que este parecia... desbotar...então percebeu... o cabelo era pintado. Bem, isso hoje em dia é normal, pensou.
Durante o ato sexual o homem chamado Sebastian falara coisas que ela não entendia. Talvez o efeito da cocaína provocasse isso. Usara a droga poucas vezes e não estava familiarizada com seus efeitos.
Depois de quase duas horas, ele levantou em silêncio, sem nada dizer, e foi até o banheiro.
Enquanto o homem tomava banho a prostituta resolveu sair dali. Estava com medo e com vários hematomas pelo corpo. Nunca havia ido para a cama com um cliente tão violento como aquele. Olhou-se no pequeno espelho que trazia na bolsa. Várias manchas roxas nos seus antebraços e nos seios os sinais dos dentes do homem. Pegou um pedaço de papel e tentou guardar o resto do pó que ele havia jogado no chão. Mas não conseguiu obter sucesso. Súbito resolveu fazer outra coisa.
As calças do homem estavam jogadas ao lado da cama, e em um dos bolsos havia uma carteira com muitos dólares.
Ao mexer em suas roupas, ela percebeu o peso no casaco. Enfiou a mão no bolso interno. Seus dedos pegaram em algo duro, frio e metálico. Trouxe para fora do bolso uma arma.
Assustada, recuou e nem quis saber da carteira do homem. Colocou a arma no bolso do casaco novamente.
Estava mexendo no trinco da porta quando ele saiu do banho.
---- Vai a algum lugar?! - ele sorriu, falando em um português arrastado.
Ela notou a incrível mudança que se processara no homem.
Publicado por xstranho em
08:46 AM
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